Terrorismo Original

Muito me incomoda o uso que se dá ao termo “terrorismo” hoje em dia. Existem medidas de segurança internacional fundamentadas nesse termo vago, arbitrando privação de direitos fundamentais para qualquer um que se encaixe no “perfil”. E que perfil é esse? No que você pensa quando ouve a palavra “terrorista”? Já se perguntou o porquê?

Se os assassinos dos jornalistas franceses não fossem muçulmanos , o ato não seria classificado como terrorismo. Essa é a verdade. E nada mais é do que uma forma que alguns países europeus – e os EUA – encontraram de se sentirem seguros: repudiar todo um povo, elegendo um inimigo ao invés de reconhecer o problema. Assim também fez Hitler e tantos outros.

Não me entendam errado. Existem sim organizações que escondem sua opção pela violência utilizando a religião islâmica. Mas será isso terrorismo? Terão esses grupos os instrumentos necessários para produzir o terror?

Em absoluto. Eles REproduzem o terror. Um terror histórico, mas também contemporâneo, aplicado em prol do imperialismo. Isso é o que eu entendo como “terrorismo original”.

As potências européias colonizaram as nações africanas e asiáticas, submeterem povos inteiros pela força, drenaram seus recursos e partiram deixando o caos social. Etnias irmãs, de repente, se viram inimigas, reproduzindo o terror imperialista umas contra as outras. Nas nações islâmicas do norte da África e do Oriente Médio, emergiram organizações ainda mais ousadas, por decidirem reproduzir o terror não apenas internamente, mas exportando a violência de volta para os “terroristas originais”, as superpotências.

Outros tantos indivíduos querem apenas fugir do jugo dessas organizações e da miséria herdada durante o domínio europeu, emigrando para países mais desenvolvidos, como a França. As potências européias, que enriqueceram às custas da colonização, tem mais é que receber e prover seus ex-colonizados. Apesar disso, o estado francês os trata de maneira criminosa: proíbe o uso do véu e a oração muçulmana em lugares públicos, além de diversas outras privações restritas aos imigrantes do islã.

O terrorismo então foi inaugurado por países como a França, que continua a utilizá-lo como instrumento de controle social. Tais ferramentas não são utilizadas, é claro, contra os cidadãos franceses. Isso é terrorismo. O mesmo acontece no Brasil, mas contra o próprio povo. O mesmo acontece no Oriente Médio, aterrorizado pela presença americana. E, finalmente, o mesmo que aconteceu com os jornalistas do Charlie, vitimados não pelo islã, mas por seus assassinos, e menos por seus assassinos do que pela postura dominadora do seu próprio país.

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A culpa é do ativismo?

Nazismo, fascismo, racismo, machismo, xenofobia, homofobia… Todos os discursos de ódio tem base na fraqueza, no sentimento de insegurança. Encaramos, de forma geral, um Estado anti-democrático em essência, mas democrático em letra, onde a privação da liberdade e da consciência levam a uma forma sutil de dominação por ódio.

E a tolerância é apontada como causa do fato social gerador de insegurança. Fato esse que se apresenta independente de haver tolerância ou não. A tolerância, em verdade, ameniza o conflito, criando a paz temporária necessária para o alcance da paz derradeira, possível somente com a transformação do fato social.

Vejo tristes discursos contra o ativismo em direitos humanos. Discursos por ações institucionais mais “decisivas” e “efetivas”, geralmente violentas, imediatas. Que o ativismo desacelera a resolução do problema.

Mas vejam só, de que resolução estamos falando? O Estado pode até eliminar definitivamente os coletivos e individuos que agem contra ele, mas sem transformar o fato social que os gerou, outros coletivos e individuos se levantarão, dessa vez com a mesma atitude “decisiva” e “efetiva” com que foram tratados seus correligionários.

Os ideais extremos desejam do Estado uma atitude que lhes justifique. O terrorismo institucional gera precedentes para a luta armada. A história da humanidade está repleta com ciclos de violência, quando comunidades retribuem a agressividade com que são tratadas. Todas as monstruosidades ideológicas foram provocadas pelo fato social, ou não passariam de um ou dois adeptos.

A luta pela garantia dos direitos humanos, as manifestações não-violentas por um estado não-violento, são meios de se criar um ambiente favorável à transformação do fato social conflituoso. Não adianta punir, é necessário ensinar. Não adianta pedir, é necessário dar. A paz não se faz com cadáveres ou presidiários, mas com cidadãos conscientes e satisfeitos.

É nisso que eu acredito.

Carta ao Zézim, de Caio Fernando Abreu

Porto, 22 de dezembro de 1979

Zézim,

cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quietO e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portantO, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tUa carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança”. Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra de Strawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, na Nova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado “Mulher em chamas”. Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado “O recomeço do sonho”. Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção – porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga
o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava pUta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus?. Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de “não me comprometam, não tenho nada a ver com isso”. Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noUtro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que “desse certo”, caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, “criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever

Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: “Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade”.

Um beijo do

Caio

PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.

A Verdade entre nós

Se você entrar em minha mente, por mais que me admmire, se decepcionará brutalmente.
Conhecerá meus segredos, pensamentos não falados e sentimentos não pensados.
A princípio, pensará que sou um monstro, caso não se identifique com minhas animalidades.
Aprofundando a pesquisa, descobrirá meus motivos mais íntimos e travará contato com meus demônios mais baixos. Verá o anjo que nunca fui, a pureza que perdi. Se envergonhará de ter-me julgado previamente.
Mais fundo… Minha individualidade nos escapa. O ego se esfacela, sem nome e sem dor. Chegará ao celeste subterrâneo de minha alma, o reflexo da sua, e pensará, confuso, que sou o próprio Deus encarnado.
Mais fundo, mais fundo: uma câmara branca em penumbra. Nada em seu interior além de um espelho em forma de lua: nele, você não se vê; nem eu, nem nada, nem porquê.
Encontrará, no eu que nunca procurou, o você que sempre me ocupou. Somos iguais em perfeição e desespero.
Daí em diante, olhar nos olhos será sempre como olhar no espelho.

Sob o Céu

Era raio e era trovão

Até onde eu podia ver;

Parti em qualquer direção,

Em vão eu tentei correr;

Era só eu na imensidão,

Não havia onde me esconder;

Foi aí que prestei atenção

E pude então perceber

Porquê fugir não era solução:

Foi dentro de mim que começou a chover.

A nossa dor

E muitos santos reais, ídolos vivos, líderes em quem milhões buscam ou buscarão espelho, também sofrem e sentem-se sós.

A dor que é minha, é a mesma deles. É nossa e não é de ninguém.

O sofrimento é um privilégio daqueles que estão vivos. Não dos pequenos, nem dos grandes. Pois só se entende sofrendo.

Então, qual o propósito do desespero, do temor a uma realidade sem saída?

A gente nunca foge, não consegue. Só se vence o que entende. Eu entendo a dor que sinto?

Mas entender não é a saída, pois esta não há. Não dá para entender nada através do interesse egoísta de escapar ao sofrimento.

Entende-se superconscientemente, sem querer, mas querendo, afinal, ser.

André Luiz Soler de Oliveira

Te escrevo, André, para saber como tu está, porque eu não sei mais o que fazer. Quando eu me encontrava – ou me perdia – em situações semelhantes a essa, ia na tua casa, a gente rolava uns dados, ria e bebia coca-cola. André, se eu for na tua casa hoje, tu não vai estar lá.

Eu lembro quando a gente reunia e conversava sobre a Vida, o Universo e Tudo o Mais. Em maiúsculo mesmo. Eu lembro que, por tu ser mais velho, eu me irritava porque parecia sempre que eu sabia menos. Mas eu sabia menos. Mesmo assim tu encontrava jeito de aprender comigo, o que também era uma maneira de me ensinar.

Dói, André, falar de ti no pretérito. Não vou mais fazer isso, porque eu sei que tu não gosta quando eu fico triste.

O Rodrigo me ligou pra avisar. O Macário ligou pra me consolar. Daí foi minha vez de avisar e consolar o João. Até nesse momento tu encontra um jeito de lembrar a regra máxima de quando a gente jogava RPG: “não separarás o grupo”.

Tinha gente que zombava do nosso RPG. Gente besta, né? André, a gente enfrentou dragões vermelhos, mortos-vivos, minotauros escravagistas… Salvamos o mundo juntos, e o que essa gente fez? A gente que devia zombar deles serem tão pequenos, mas a gente nunca fez isso. A gente sabia que era tudo imaginação, mas valia igual.

Sabe, André, eu não vou me alongar nesse texto. Temos muito o que conversar ainda, não vai dar pra ser tudo de uma vez. Essas palavras eu vou publicar, ok? Eu quero tornar pública a minha tristeza. Não compreendo o luto ou o pesar, esse tipo de coisa não combina coma  naturalidade com que nós vemos as coisas, eu e você, mas vejo necessidade de anunciar essa perda, tão importante.

Eu sei, companheiro, que eu não te perdi de verdade. Tu é agora uma estrela brilhando na minha memória, uma luz que eu posso apreciar na noite solitária. Mas a gente não vai mais rolar dado junto, nem rir ou beber coca-cola. Isso agora acabou. É lembrança.

Divirta-se, André. Vai te aventurar no astral, mas vê se volta. Tô te esperando.

 

 

 

 

Nota

Quem somostodosmacacos?

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Quando fiquei sabendo da manifestação #somostodosmacacos, a primeira coisa que fiz foi procurar a página Geledés Instituto da Mulher Negra (https://www.facebook.com/geledes?fref=ts), por indicação da amiga e companheira de lutas Natália Damazio. A manifestação estava em pauta, mas não havia apoio por parte do movimento negro, somente repúdio.

Era regra o reconhecimento, em diferentes graus, da inteligência na atitude do Daniel Alves, assim como da estupidez na posterior manifestação #somostodosmacacos. Amigos negros também se manifestaram a respeito, sempre contra a campanha publicitária, em repúdio à forçação de barra em que consiste a tentativa de ressignificação do termo “macaco” quando utilizado para ofender negros e negras.

Depois disso eu me manifestei, engrossando o repúdio contra a dita campanha.

Amigos brancos vieram conversar comigo. Amigos brancos expuseram suas ideias, argumentaram com as melhores intenções e me pediram que discorresse mais quanto ao meu ponto de vista. Aqui vai:

Não cabe a nós, brancos, amarelos, índios ou mestiços, pautar essa ressignificação. Quem sofre com o termo “macaco” é o negro, e não o branco. O branco inaugurou o termo na qualidade de ofensa e agora quer ressignificar? Isso é mais uma tentativa de domínio, uma forma de se apropriar, além do mérito civilizatório, também do processo de humanização do negro.

A minha opinião é a seguinte: a única razão nesse assunto que importa é a do negro; e o branco que tenha bom senso emprestará seu apoio, e somente. Quem protagoniza a luta contra o preconceito é o negro, quem é atingido pelo termo é o negro, então quem decide o que fazer a respeito deve ser o negro também, branco não apita nada aqui.   

E o que eu vi nesse #somostodosmacacos foi um famoso de pele escura que nunca se considerou negro, mais uma pá de famosos brancos e um monte de gente sem compromisso real nenhum com a mudança. Agora, o que eu vi contra a tal campanha foi, de cara, o movimento negro, que luta de sol a sol contra a discriminação racial; que sente, que sofre, que faz.

Numa avaliação rápida, eu já escolhi o meu lado. Quando me perguntam sobre meus argumentos, eu os tenho e posso expor sem problemas, mas isso não tem a menor importância. O que importa é o meu apoio incondicional ao movimento negro enquanto vanguarda emancipadora e transformadora da realidade racial do nosso país. O que importa é, só para variar, o branco se submeter à legitimidade do negro para dizer o que é melhor para si.

O que não importa, definitivamente, é uma campanha “pavê” que não apresenta qualquer proposta sinceramente comprometida, ou um mínimo de sensibilidade para com a autonomia racial.

Toda manifestação que visa a libertação é válida, mas aquelas ingênuas e tímidas demais só servem como tentativa de fuga do real tamanho da nossa responsabilidade.